Comentário ao Evangelho de Lucas 6, 20-26 PDF Imprimir E-mail
Escrito por Ervino Martinuz   
Ter, 06 de Setembro de 2011 18:27
• O evangelho de hoje nos traz quatro bem-aventuranças e quatro maldições do Evangelho de Lucas. Existe uma revelação progressiva na maneira como Lucas apresenta o ensino de Jesus. Até 6,16, afirma muitas vezes que Jesus ensinava ao povo, porém não descreve o conteúdo do ensino (Lc 4,15.31-32.44; 5,1.3.15.17; 6,6). Agora, depois de ter informado que Jesus vê a multidão desejosa de ouvir a palavra de Deus, Lucas cita o primeiro grande discurso que começa com as exclamações: “Bem-aventurados vós, os pobres!” e “Mas ai de vós ricos!”, e preenche todo o resto do capítulo (Lc 6,12-49). Alguns chamam este discurso do “Discurso da Planície”, porque para Lucas, Jesus desceu da montanha e parou num lugar plano onde pronunciou o discurso. No evangelho de Mateus, este mesmo discurso foi feito na montanha (Mt 5,1) e é chamado o “Discurso da Montanha”. Em Mateus, no discurso encontramos oito bem-aventuranças, que apresentam um programa de vida para as comunidades cristãs de origem judaica. Em Lucas, o sermão é mais breve e radical. Traz só quatro bem-aventuranças e quatro maldições, dirigidas às comunidades helenistas, formadas por ricos e pobres. Este discurso será meditado nos próximos dias. • Lucas 6,20: Bem-aventurados vós, os pobres! Olhando os discípulos, Jesus declara: “Bem-aventurados vós, os pobres, porque vosso é o reino de Deus!” Esta declaração identifica a categoria social dos discípulos. Eles são pobres! E a eles Jesus promete: “O Reino é vosso!” Não é uma promessa feita no futuro. O verbo está no presente. O Reino pertence a eles. Eles são os felizes desde já. No evangelho de Mateus, Jesus explicita o sentido e diz: “Bem-aventurados os pobres em Espírito!” (Mt 5,3). São os pobres que tem o Espírito de Jesus. Porque existem pobres com a mentalidade de ricos. Os discípulos de Jesus são pobres com metalidade de pobres. Como Jesus não querem acumular, mas assumem sua pobres e com ele, lutam por uma convivência mais justa, onde exista a fraternidade e a partilha dos bens, sem discriminação. • Lucas 6,21-22: Bem-aventurados, que agora tendes fome e chorais! Na segunda e terceira bem-aventurança Jesus diz: “Bem-aventurados vós, que agora tendes fome, porque sereis saciados! Bem-aventurados vós, que agora chorais, porque havereis de rir!” Uma parte das frases está no presente e a outra no futuro. O que agora vivemos e sofremos não é definitivo. O que é definitivo é o Reino que estamos construindo hoje com a força do Espírito de Jesus. Construir o reino supõe dor e perseguição, mas uma coisa é certa: o reino chegará e “vós sereis saciados e rireis!”. • Lucas 6,23: Bem-aventurados sereis, quando vos odiarem…! A 4ª bem-aventurança se refere ao futuro: “Bem-aventurados sereis quando os homens vos odiarem, vos expulsarem, vos insultares e amaldiçoarem o vosso nome por causa do Filho do homem! Alegrai-vos, nesse dia, e exultai, pois será grande a vossa recompensa no céu; porque era assim que os antepassados deles tratavam os profetas!” Com estas palavras de Jesus, Lucas incentiva as comunidades de seu tempo, que eram perseguidas. O sofrimento não é suspiro de morte, mas dor de parto. Fonte de esperança! A perseguição era um sinal que o futuro anunciado por Jesus estava chegando. As comunidades estavam indo pelo caminho certo. • Lucas 6,24-25: Ai de vós, ricos! Ai de vós, que agora estão satisfeitos e rides! Após as quatro bem-aventuranças em favor dos pobres e dos excluídos, seguem quatro ameaças ou maldições contra os ricos e aqueles aos quais tudo vai bem e são elogiados por todos. As quatro ameaças tem a mesma forma literária idêntica às quatro bem-aventuranças. A primeira está no presente. A segunda e a terceira tem parte no presente e outro no futuro. E a quarta se refere completamente ao futuro. Estas ameaças se encontram só no evangelho de Lucas e não naquele de Mateus. Lucas é mais radical na denúncia da injustiça. Diante de Jesus, na planície, não estão os ricos. Só pessoas pobres e doentes, vindas de todas as partes (Lc 6,17-19). Mas Jesus diz: “Ai de vós, ricos!” Porque Lucas, transmitindo estas palavras de Jesus, está pensando mais às comunidades de seu tempo. Nelas havia ricos e pobres, e existe discriminação dos pobres por parte dos ricos, a mesma que marcava a estrutura do Império Romano (cf. Tg 5,1-6; Ap 3,17-19). Jesus critica dura e diretamente os ricos: Vós ricos, já tendes vossa consolação! Agora tendes fartura, mas passareis fome! Agora rides, mas tereis luto e lágrimas! Sinal que para Jesus a pobreza não é uma fatalidade, nem é fruto de preconceitos, mas é fruto de enriquecimento injusto por parte dos outros. • Lucas 6,26: “Ai de vós quando todos vos elogiam, porque era assim que antepassados deles tratavam os falsos profetas!” Esta quarta ameaça se refere aos filhos daqueles que nos passado elogiavam os falsos profetas. Porque algumas autoridades dos judeus usavam o prestígio e a autoridade deles para criticar Jesus. Para uma avaliação pessoal Olhamos a vida e as pessoas com o mesmo olhar de Jesus? O que pensas em teu coração: uma pessoa pobre e faminta é realmente feliz? As imagens que vemos na tevê e a propagando comercial, que ideal de felicidade nos apresentam? • Afirmando: “Bem-aventurados os pobres”, Jesus queria dizer que os pobres devem continuar a serem pobres?