Comentário ao Evangelho de Mateus 8, 28-34 PDF Imprimir E-mail
Escrito por Ervino Martinuz   
Ter, 28 de Junho de 2011 19:12
• O evangelho de hoje focaliza o poder de Jesus sobre o demônio. No nosso texto, o demônio ou a força do mal está associado a três coisas. a) Ao cemitério, lugar dos mortos. À morte que mata a vida! b) Ao porco, que era considerado um animal impuro. A impuridade que separa de Deus! c) Ao mar, que era considerado como o símbolo do caos antes da criação. O caos que destrói a natureza. O evangelho de Marcos, de onde Mateus tira sua informação, associa a força do mal a um quarto elemento que é a palavra Legião (Mc 5,9), nome dos exércitos do império romano. O império que oprimia e explorava o povo. Entende-se, assim que a vitória de Jesus sobre o demônio tinha uma enorme importância para a vida das comunidades dos anos setenta do primeiro século, época em que Mateus escreve seu evangelho. As comunidades viviam oprimidas e marginalizadas, por causa da ideologia oficia do império romano e do movimento farisaico que se renovava. O mesmo significado e a mesma dimensão continuam a serem válidos hoje. • Mateus 8,28: A força do mal oprime, maltrata e aliena as pessoas. Este versículo inicial descreve a situação das pessoas antes da vinda de Jesus. Descrevendo o comportamento dos dois endemoninhados, o evangelista associa a força do mal ao cemitério e à morte. É um poder mortal, sem meta, sem direção, sem controle e destruídos, que apavora todos. Tira da pessoa a própria consciência, de autocontrole e de harmonia. • Mateus 8,29: Diante da simples presença de Jesus a força do mal que quebra e se desintegra. Aqui se descreve o primeiro contato entre Jesus e os dois possuídos pelo mal. Eis a desproporção total. O poder, que antes parecia tão forte, se derrete, se desintegra diante de Jesus. Eles grita,: “O que tens a ver conosco, Filho de Deus? Tu vieste aqui para nos atormentar antes do tempo?” Percebem que estão perdendo o poder. • Mateus 8,30-32: O poder do mal é impuro e não tem autonomia, nem consistência. O demônio não tem poder sobre seus movimentos. Consegue só entrar nos porcos com a licença de Jesus! Uma vez que entraram neles, os porcos se atiram n’água. Segundo a opinião do povo, o porco era símbolo da impureza que impedia ao ser humano de se relacionar com Deus e de ser aceito por Ele. O mar era o símbolo do caos existente antes da criação e que, segundo a crença da época, continuava a ameaçar a vida. Este episódio dos porcos que lançam no mar é estranho e difícil de entender. Mas a mensagem é muito clara: diante de Jesus, o poder do mal não tem autonomia, não tem consistência. Quem acredita em Jesus já venceu o poder do mal e não deve ter medo! • Mateus 8,33-34: A reação das pessoas do lugar. Informada pelos homens que cuidavam dos porcos, as pessoas do lugar vão encontro de Jesus. Marcos diz que viram “o endemoninhado sentado, vestido e plenamente consciente” (Mc 5,15). Mas tinham perdido os porcos! Por isso pedem a Jesus que se afaste da localidade deles. Para eles os porcos eram mais importantes da pessoa que tinha sido libertada do mal. • A expulsão dos demônios. Na época de Jesus, as palavras demônio ou satanás eram usadas para indicar o poder do ma que afastava as pessoas do reto caminho. Por exemplo, quando Pedro tentou desviar Jesus, foi Satanás para Jesus (Mc 8,33). Outras vezes, essas mesmas palavras eram utilizadas para indicar o poder político do império romano que oprimia e explorava o povo. Por exemplo, no Apocalipse, o império romano é identificado com "Diabo ou Satanás" (Ap 12,9). Enquanto outras vezes, as pessoas usavam as mesmas palavras para identificar os males e as doenças. Falava-se de demônio, espírito mudo, espírito surdo, espírito impuro, etc. Sentia-se um grande medo! Na época de Mateus, segunda metade do primeiro século, aumentava o medo dos demônios. Algumas religiões, vindas do Oriente divulgavam um culto ao espírito. Ensinavam que nossos gestos errados podiam irritar os espíritos, e estes, para se vingarem, podiam impedir o nosso acesso a Deus e nos privar dos benefícios divinos. Por isto, através de ritos e escritos, intensas orações e complicado ritos, as pessoas tentavam acalmar estes espíritos ou demônios, para que não trouxessem danos à vida. Estas religiões, em lugar de libertar as pessoas, alimentavam o medo e a angústia. Pois bem, um dos objetivos da Boa Nova de Jesus era ajudar as pessoas a se libertar deste medo. A vinda do Reino de Deus significou a vinda de um poder mais forte. Jesus é “o homem mais forte” que vem para acorrentar Satanás, o poder do mal, arrancando-lhe a humanidade prisioneira do medo (cfr. Mc 3,27). Por isto, os evangelhos insistem muito sobre a vitória de Jesus, sobre o poder do mal, do demônio, sobre Satanás, sobre o pecado e sobre a morte. Era para animar as comunidades a vencerem este medo do demônio! E hoje, quem de nós pode dizer: “Eu sou totalmente livre?” Ninguém! E então, se não sou totalmente livre, existe alguma coisa em mim que é possuída por outros poderes. Como expulsar estas forças? A mensagem do evangelho de hoje continua sendo válida para nós. Para uma avaliação pessoal • Hoje o que oprime e maltrata as pessoas? Por que, hoje, em certos lugares se fala tanto de expulsar demônios? É bom insistir tanto sobre o demônio? O que tu pensas sobre isso? • Quem de nós pode afirmar que é totalmente livre o libertado? Ninguém! E, então, estamos todos, um pouco possuídos por outras forças que ocupam algum espaço dentro de nós. Como fazer para expulsar este poder dentro de nós e da sociedade?